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NOTÍCIA
04/09/2008 - 19:34:08
André Santana entrevista professor Severino Ngoenha

Severino Ngoenha:
“Precisamos efetivar o Pan-africanismo através do comércio de idéias”

André Luís Santana*

O professor moçambicano Severino Ngoenha esteve em Salvador, na última semana, como convidado do Programa Fábrica de Idéias CEAO / UFBA, e proporcionou um importante encontro entre estudiosos da história e cultura africana com os elementos que provocaram as “Metamorfoses da(s) Cidadania(s) Africana(s)”. Foi o diálogo entre a África construída e idealizada pelos afrodescendentes e a África dos africanos, como ele faz questão de distinguir.

Severino Elias Ngoenha nasceu em 1962, em Maputo. É bacharel em Teologia, Doutor em Filosofia e dá aulas na Universidade Lousanne, na Suíça. Como um africano, professor de filosofia, Ngoenha foge à regra difundida pelo colonialismo e reforçada pelo líder político e intelectual do Senegal, Leopold Sedar Senghor, para quem “a razão é helênica e a emoção é africana”. Contrariando a tese, Ngoenha diz que não sabe tocar instrumento, nem dançar, mas pensa e faz pensar, com o poder das palavras que emite e das reflexões que provoca. Com uma visão analítica da trajetória de luta dos países africanos, o professor denuncia o colonialismo e o neo colonialismo, cujas conseqüências são sentidas ainda hoje, através da pobreza e da fragilidade de alguns governos e relativiza as contribuições dos afrodescendentes espalhados na Diáspora, destacando nomes como Booker T. Washington, Marcus Garvey, William E. B. Du Bois, Aimé Césaire e Frantz Fanon. Contudo não deixa de apontar as responsabilidades do próprio continente negro diante do seu destino:

“A África precisa rever dois importantes contratos. O contrato político que permitirá o Reino da Palavra, o diálogo de portas fechadas entre seus países. Afinal enquanto abrirmos para o mundo nossos problemas, estaremos permitindo a intromissão internacional em nossas questões. O outro contrato é o cultural, para exigirmos que a cultura e a tradição africana não sejam elementos folclóricos. Sejam respeitados e interfiram em áreas de poder da razão como a Escola e o Direito”.

O Professor Ngoenha conversou com o jornalista André Luís Santana, sobre alguns temas cruciais da relação entre o Brasil e a África

André Luís Santana - Uma das principais bandeiras do movimento negro brasileiro tem sido a valorização da contribuição africana para o mundo e, principalmente para a civilização brasileira. Na opinião do Senhor, quais os motivos que os brasileiros têm para se orgulhar de serem descendentes da África?

Severino Ngoenha - É um grande paradoxo. Como se orgulhar de ser descendente de um povo com problemas enormes como os enfrentados pelos países africanos? Há décadas atrás tínhamos um forte sentimento de união e orgulho na luta pela independência. Hoje, com todos os países independentes, ainda estamos numa fase de estruturação, com sérias dificuldades na democracia de algumas nações, um forte fluxo de migração para Europa, doenças, fome e pobreza. Todas sérias conseqüências do colonialismo e do neo colonialismo. Independência exige responsabilidade. Contudo, quando nos perguntam sobre as qualidades de nossa mãe, teremos tanto a dizer, da forma como ela nos trata, da comida que prepara, do carinho e de como batalhou para nos criar, que chegaremos à conclusão de que temos a melhor mãe do mundo. Pois é esse orgulho de filho que os brasileiros precisam ter pela África. Orgulho por uma mãe que ama seus filhos do amor mais profundo ... da mãe que gerou seu filho e faz tudo para ver seu filho bem. Como mãe, a África deu tudo que podia aos seus filhos. Os brasileiros devem ter orgulho dessa mãe e negar tudo que se diz de negativo sobre o continente ... falar das contribuições africanas ao mundo. Pois a situação atual é uma passagem difícil. Uma construção que precisa da contribuição de todos os filhos. Dos que estão lá e de toda a Diáspora. Cada evolução da África deve servir de orgulho para o Brasil e vice-versa.

André – Nesta construção coletiva, de que forma a Academia pode contribuir na redução dos problemas no continente africano?

Ngoenha – Destaco a iniciativa do CEAO de oferecer um curso que tem a África como perspectiva. [O Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia possui uma Pós-Graduação, com mestrado e doutorado em duas linhas de pesquisa: Estudos Étnicos e Estudos Africanos]. Um curso que recebe estudantes africanos e traz professores africanos para um intercâmbio, para aproximar nosso povos, nossos problemas. Houve uma época em que o Pan-africanismo proporcionou o encontro de africanos em diversas partes. Independente do lugar, eles se conectavam, se ajudavam. O líder Marcus Garvey chegou a comprar dois grandes navios para possibilitar o encontro entre africanos e afrodescendentes. É preciso reatar esses laços. Juntos seremos mais fortes. Precisamos observar que nesta globalização, há microglobalizações. Os judeus mantém laços de solidariedade pelo mundo, há também os francófanos e outros povos. Hoje precisamos efetivar o Pan-africanismo através do comércio de idéias, do fluxo de pensamento.

André Nesses dias em Salvador, o que o Senhor observou de traços mais fortes entre os baianos e os africanos? 

Ngoenha – Eu vi isso muito forte na fisionomia das pessoas, nos pratos da cozinha baiana, nas danças. É surpreendente como estamos perto. Andando pela Ilha de Itaparica, eu tive a impressão de está muito perto, pisando as areias africanas. Isso leva a duas constatações: primeiro que a colonização lusófona foi a mais longa. Assim como o Brasil nas Américas, Angola, Moçambique e outras ex-colônias portuguesas na África foram as últimas a conquistarem a independência. As ex-colônias portuguesas foram as únicas que precisaram fazer uma luta armada para conquistar a independência. Isso dificulta a saída da pobreza. Aqui há a racialização da pobreza. A pobreza tem cor, é negra. O trabalho de valorização aqui deve ser ainda mais forte. Acredito que aqui na Bahia seja o único lugar no mundo que não precisamos ter vergonha de sermos africanos. Porque aqui os negros não fogem da negritude. Os negros aqui no Brasil querem respeito, querem autonomia, querem ser valorizados ... sem perder a condição de serem negros. Daí a importância das ações afirmativas. A minha esperança é de que se foi no Halley, no início do século XX, que começou a luta dos descendentes da África, será daqui que encontraremos a saída.

 Para conhecer mais do pensamento deste intelectual africano, leia seus mais de dez livros, entre eles: Filosofia Africana - das Independências às Liberdades, Por uma Dimensão Moçambicana da Consciência Histórica, O Retorno do Bom Selvagem, Mukatchanadas, Vico e Voltaire - Duas Interpretações Filosóficas da História do Século XVII e Os Tempos da Filosofia – Filosofia e Democracia Moçambicana.

*André Luís Santana é jornalista e diretor do Instituto Mídia Étnica (www.correionago.com.br)