Autobiografia de Sidney Poitier inova ao construir "mensagens" destinadas à bisneta Ayele, de 5 anos
Lúcio Flávio
Aos 83 anos, completados no último 20 de fevereiro, o ator afro-americano Sidney Poitier trilhou trajetória pontuada por exemplos de dignidade e superações. Primeiro astro negro a ganhar Oscar em 1963, por Uma voz nas sombras, ele, que nasceu em Miami, mas cresceu em Cat Island, nas Bahamas, teve a carreira reconhecida em 2002 com uma estatueta honorária pelo conjunto da obra.
Sem expor o rosto nas telonas desde 1999, quando coestrelou a comédia romântica Lições da vida, hoje o octogenário artista dedica seu tempo exclusivamente à família. Uma parcela desse lado intimista é dividido com o público no lançamento da editora Larousse Uma vida muito além das expectativas. Autor de duas autobiografias — This life e The measure of a man — Poitier recorre mais uma vez às memórias e palavras para construir espécie de testamento afetivo em homenagem à bisneta Ayele, de 5 anos, a mais nova integrante do clã Poitier. A motivação para o projeto nasceu da necessidade do ator eternizar sua presença com a bisneta.
“Queria que ela me conhecesse pelas minhas próprias palavras, a partir de histórias não transmitidas, mas contadas pelos meus próprios lábios”, escreve o ator, que deixou registrado suas reflexões acerca da vida por meio de cartas-testamentos. “O processo da escrita dessas cartas foi ao mesmo tempo intrigante e esclarecedor. Ele me permitiu revisitar alguns lugares e observar a uma distância segura o quão arriscadamente perto do fogo eu já dancei”, esclarece.
Dividido em três partes, o livro se desmembra em temas como solidão, relação familiar, solidariedade entre irmãos, perplexidade diante do novo, fé, obstinação, insegurança, futuro — entre outros assuntos —, a partir de um discurso simples e direto. Com tom reflexivo, Poitier esbanja maturidade e sabedoria ao esmiuçar passagens relevantes de sua vida. A mais chocante diz respeito ao seu próprio nascimento, quando o pragmatismo falou mais alto e sua mãe, diante da fragilidade do pequeno bebê que tinha em mãos (de sete meses e com pouco 1,4kg), mandou que o pai fosse atrás de uma caixa de sapato para enterrar o filho.
“Minha mãe sabia que, ao ser realista, ela só estava tentando amenizar sua dor, mas ela tinha que lutar contra a inevitabilidade da perda. (…) A fé dela em Deus, que era plena, teria sido o bastante para sustentar sua crença de que eu havia nascido para sobreviver”, reflete no livro. A sinceridade com que o bisavô Poitier descreve sua infância difícil e adolescência turbulenta pode, no futuro, surpreender a pequena Ayele, mas também arrancar gargalhadas diante de episódios engraçados, como da vez que viu pela primeira vez um carro pelas ruas da capital Nassau (segundo ele um besouro imenso) e o primeiro sorvete apreciado aos 10 anos. Os dois apresentados pela mãe Evelyn. “Olhei para aquilo sem saber o que fazer. Ela começou a lamber o dela e gesticulou para que eu fizesse o mesmo. Ainda senti o choque que aquela guloseima gelada provocou no meu sistema nervoso”, descreve.
Nova forma
Longe de ser uma biografia em sua essência, o livro ajuda, e muito, a situar o leitor por fases significativas da vida do artista. Chato mesmo só a parte em que Poitier usa uma retórica cansativa e melíflua, numa espécie de diálogo virtual com a bisneta. Driblando esse impasse, o projeto se mostra autêntico por trazer uma nova forma de apresentar notas biográficas.
Depois de ingressar no Exército e lavar muitos pratos em Nova York, onde chegou aos 16 anos, em 1943, Poitier investiu na carreira de ator. O incentivo foi um inusitado anúncio na página de empregos do Amsterdam News. “Com o pouco tempo que passara na escola, não conseguia ler muita coisa no jornal além das listas de ‘precisa-se’”, conta. “Apesar de não saber absolutamente nada sobre atores, fiquei curioso o bastante para examinar o artigo que seguia o anúncio com mais cuidado”, continua o ator, que deu início oficialmente à carreira em 1950, com o suspense de ação O ódio é cego. “No fim dos anos 1960 eu passava por uma fase de muito sucesso como ator, tive a boa fortuna de me tornar o nome mais bem pago do cinema graças a três grandes sucessos lançados no mesmo ano e que emocionaram o público”, diz orgulhoso, referindo-se ao No calor da noite (1967), Adivinhe quem vem para jantar (1967) e o mais presente na memória das pessoas, o singelo Ao mestre com carinho (1966).
"Tive a boa fortuna de me tornar o nome mais bem pago do cinema graças a três grandes sucessos lançados no mesmo ano e que emocionaram o público” Sidney Poitier, ator