CONTO & FAMÍLIA
Domingo
Para Jônatas Conceição da Silva e Agnus Ribeiro
| Lande Onawale |
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Naquela manhã, mamãe acordou de mal com as palavras. Quando saímos do quarto, cada um a seu tempo e ritmo, já a encontramos muda... Ou quase. Era domingo - dia em que mais cantarolava - e sua introspecção nos deixou intimamente em estado de alerta.
Durante o café, meu olhar interrogava os quatro menores, que me davam de ombros. Tuninho, o caçula de seis anos, além dos ombros, mostrou-me as palmas das mãos, o lábio inferior e arregalou os olhos em negativa. Mamãe, vindo da cozinha, o surpreendeu no exagero deste gesto, mas, graças aos seus chinelos, encontrou os demais com olhos fixos no pão que ia do prato à boca. Papai não estava conosco, pois dobrou o turno de trabalho, e só chegaria à noite. No seu lugar, a mudez sentara-se à mesa. E poderia ter feito uma ceia farta...
Ao longo do dia, tentando decifrar aquela hóspede incômoda, fazíamos retrospectivas do nosso sábado. Eu, com quinze anos incompletos, dirigia os interrogatórios. No fundo, não esperava revelações das minhas irmãs e irmãos - aquele silêncio era absolutamente estranho a todos nós. Um silêncio quase sem pausas, sem resmungos. Feito somente de respiração.
Poucas coisas a deixavam tão assim para si mesma, e nenhuma delas - que lembrássemos - havia acontecido. Não havíamos brigado a ponto de bater um no outro, nenhum vizinho se mudou deixando dívida na sua quitanda, nem papai se atrapalhara na compra de mantimentos para a casa, ou roupas e sapatos para nós. Aliás, estes esquecimentos eram o que mais faziam mamãe zangar-se - e calar-se. Eu imaginava que por causa do constrangimento de ir trocar os alimentos, ou pedir à costureira vizinha para acrescentar nesgas nas roupas fazendo-as caber em algum de nós.
Nada disso ocorrera, entretanto, e ainda que houvesse ocorrido, o silêncio daquele dia era maior que tudo. Era preciso ter acontecido todas aquelas coisas juntas para que as palavras sumissem, como sumiram. Desde que viemos da Bahia, foi a primeira vez que me senti numa cidade estranha, numa casa estranha. Eu tinha a certeza que papai resolveria aquele enigma. "Mas a que horas chegaria?” Naquela época, do Pina até o Engenho do Meio era quase um Capibaribe!
O fim de tarde na "avenida” de pequenas casas em que morávamos - na verdade um beco sem saída - foi quieto, como sempre, mas achávamos que a culpa estava em mamãe; que sua mudez, não se contentando em ocupar toda a nossa casa, saíra à rua, calara o mundo, e por isso a noite chegou sem ruídos.
No quarto havia dois beliches. Uma das camas de cima era só minha, a outra, da irmã logo depois de mim e do caçula. A irmã e o irmão do meio, que ainda faziam xixi na cama, dormiam nos leitos de baixo. Aquela visita inesperada e misteriosa nos arrastou mais cedo para o quarto, e cada um de nós teria uma companhia ao dormir. Pedacinhos de silêncio.
Eram 23:45h. O que me assustou mais não foi ter sido acordado diante daquela luz acesa, e sim estar ouvindo a voz de mamãe novamente. Ela sacudiu levemente minha perna e chamou meu nome, até me ver sentado na cama protegendo os olhos da claridade. Fez o mesmo com todas as crianças.
Nem o rumor de tampas e panelas sendo mexidas, que nos chegava da cozinha, nem o estrondo das duas frases que mamãe iria nos dizer eram, naquele momento, mais importantes para mim que a sua própria voz. E quando ela acordou o último de nós, sumiu ao corredor, retornando alguns segundos depois com três crianças pela mão. Parou na porta do quarto e disse:
- São seus irmãos. A partir de hoje, dormem com vocês.
E saiu do quarto, fechando a porta entre nós.
Aos poucos, fomos tirando aquela mudez de debaixo dos nossos lençóis. Cochichando, eu lembrava aos menores que éramos sempre solidários com as pessoas, e daríamos um jeito de acomodar os pequenos no quarto.
"...mas papai poderia ter avisado...”.