O Maranhão: "Balaiada", Enchentes, Descasos...
Diferentemente do passado, os novos balaios não conseguiram mobilizar amplamente a população e impedir a cassação do governador
Apesar do caráter sensacionalista das matérias cotidianamente exibidas nas redes de televisão, as enchentes no estado do Maranhão constituem, de fato, um lado da face dessa imensa tragédia, acrescida com episódios não menos trágicos e revoltantes como de “políticos” que desviam os donativos para seus “currais eleitorais”, ou de quadrilhas que assaltam os caminhões que transportam esses donativos, ou de prefeitos que não são encontradas nas suas cidades para receber e coordenar a distribuição das doações, já que estão na capital, instalados em suas mansões à beira das praias, e por aí vai...
Sem o devido aprofundamento - característica da mídia que sobrevive vendendo para o povo a própria desgraça desse povo - as matérias sobre as cheias no Maranhão passam a idéia que toda pobreza/miséria dos desabrigados é conseqüência isolada das fortes chuvas. O que não é verdade: a pobreza/miséria da maioria da população maranhense vem de longe, remonta ao período escravocrata, e, mais recentemente, vem de 40 anos de mandos e desmandos da oligarquia dos Sarney (e seus apadrinhados), cujas riquezas e poderes são inversamente proporcionais a esse quadro de extrema vulnerabilidade dessa população.

Nessas notícias espetaculosas o discurso superficial é sobreposto intencionalmente pela força das imagens - mostrando uma gente marcadamente negra, e com mestiçagem, que “irracionalmente” insistem em morar nas áreas ribeirinhas ou encima/embaixo de barrancos com riscos de enchentes e desmoronamentos. Traduzindo: as imagens maldosamente direcionam para uma falsa lógica que a responsabilidade do flagelo é dos flagelados. O complemento dessa mensagem, ainda mais perverso, dá-se nas cucas maravilhosamente destroçadas pela ideologia racista na qual o negro é culpado ainda que prove o contrário. Outro equívoco induzido é pensar que a recente tragédia a atingir quase metade dos 217 municípios maranhenses é apenas a destruição provocada pelas tempestades e inundações. Outra tragédia começou a se delinear no final de 2008, quando se tornou irreversível o processo de cassação do governador Jackson Lago - eleito no 2º turno das eleições de 2006, numa disputa acirrada com a filha do coronel Zé Sarney, Roseana - que agora se auto-denomina de “Guerreira”.
Como naquele ano, 2008, completava 170 anos do início da Guerra da Balaiada, os apoiados, beneficiados e simpatizantes do governo Jackson, instituíram o movimento denominado “Balaiada” com o objetivo de se contrapor à cassação do então governador. Os “novos balaios” sediados numa tenda gigante em frente ao Palácio dos Leões, protegidos pela polícia (!) e bancados com dinheiro público (!), não conseguiram mobilizar nem sensibilizar aquela massa popular expressiva que foi às ruas, em novembro de 2006, festejar o suposto fim da oligarquia de 40 anos e a chegada da tão suada e sonhada MUDANÇA. O sonho acabou em abril de 2009, cumprindo- se a profecia do velho oligarca José Sarney, o senador do Amapá (!), que teria em 2006 consolado a chorosa e birrenta “Guerreira” derrotada nas urnas, prometendo: “Não chore, filhinha do papai, você voltará ao comando do Maranhão!” Diga-se de passagem, o governo Jackson forneceu todas as munições para se cumprir tal premonição: virou as costas para os movimentos populares, iniciou o mandato peitando intransigentemente uma greve interminável dos professores estaduais, sem se falar num mar de denúncias sobre corrupções e roubalheiras desenfreadas em quase todos os escalões da administração estadual.
Diferente da Balaiada do passado que recebeu o apoio massivo dos quilombolas insurrecionados sob o comando do Imperador Dom Cosme Bento das Chagas, a “nova Balaiada” tentou, mas não conseguiu o apoio do Movimento Negro, exceto de algumas lideranças negras. Também não houve confronto nem mortos, como em 1840, quando o sanguinário Duque de Caxias comandou pessoalmente o extermínio genocida de 11 mil negro/as. Se bem que o governador Jackson Lago, numa bravata, tenha bradado que só deixaria o Palácio, morto; recebendo o apoio incondicional do deputado federal negro, Domingos Dutra (PT), que, solidário, esbravejava que morreria junto com o governador cassado. Detalhe: ambos continuam bem vivos e... fora do Palácio.
Tal qual num conto de fada invertido, a “turma do mal” venceu, e assim assumiu novamente o poder, quem sabe, por mais 40 longos e tenebrosos anos... Tendo, no início desse novo mandato, de enfrentar a desgraça de três terríveis pragas: primeira, a cirurgia de um aneurisma cerebral da “Guerreira”; segunda, a falência financeira do Estado, pois Jackson limpou os cofres, torrando quase 1 bilhão de reais (!) em menos de um mês, ou seja, o que não conseguiu “gastar”, entregou aos prefeitos de sua base aliada; a terceira praga são as enchentes, tornando visíveis um exército de populações vulneráveis, vítimas de uma sucessão de descasos, omissões, conivências e práticas criminosas daqueles que se locupletam com o poder, e sempre aproveitam a boa fé do povo e as tragédias que o assolam, para fazer como o carcará da música do compositor negro João do Vale “Pega, mata e come!”