Para alguns em nosso país a vida começa aos quarenta! Quebrando esta regra, o cineasta Zózimo Bubul inaugura, aos setenta anos, o Centro Afro Carioca de Cinema, bem no coração do Rio de Janeiro, a Lapa
O lançamento do espaço foi em
grande estilo, com a realização do I
Encontro do Cinema Negro BrasilÁfrica,
com curadoria do próprio
Zózimo Bubul. O evento aconteceu
no Rio na semana de 22 a 28 de
novembro e, depois, seguiu na semana
seguinte para Salvador.
O I Encontro do Cinema Negro
Brasil-África serviu também
para fazer uma homenagem a
Sembène Ousmane, cineasta, escritor
e ativista senegalês, que faleceu
aos oitenta e quatro anos, em junho
de 2007, em Dakar, Senegal. O
homenageado foi um dos pioneiros
na produção cinematográfica africana,
premiado duas vezes no Festival
de Veneza e considerado o “pai
do cinema africano”. O público pôde
assistir sua última produção,
Moolaadè, de 2005.
O evento foi marcado pela diversidade.
Ao todo foram quarenta
e três cineastas brasileiros selecionados,
mais onze africanos. A
curadoria dos filmes exibidos foi
muito democrática, pois reuniu cineastas
brasileiros já conhecidos do
grande público, como Joel Zito Araújo,
Jefferson D, Antonio Pilar, Ari
Candido Antonio Pompeo,
Clementino Jr., Jorge Coutinho,
Waldir Onofre, Haroldo Costa, Antonio
Pitanga, Lázaro Ramos, MV
Bill, Rogério Moura, Zózimo Bubul,
entre outros. Mas também foram
selecionados trabalhos de Luciano
Vidigal, integrante da ONG “Nós do
Morro”, Ricardo
Brasil, que é ator,
rapper e dirigiu o
curta “Chapa Quente”,
além de Akins
Kintê, Allan Rosa e
Matheus Subverso,
que são jovens
paulistanos participantes
do Sarau da Cooperifa, e
muitos outros...
As mulheres deram um tom
diferenciado ao evento, que pôde
contar com a participação de nove
cineastas brasileiras, de diferentes
regiões do país. São elas: Lílian
Santiago, que dirigiu o
documentário “Família Alcântara”;
Ilea Ferraz e Maria Alves, que também
são atrizes; Carmem Luz, que
dirige a Cia. Étnica de Dança;
Dandara, que apresentou o “Gurufim na Mangueira”; Janaína
Oliveira a rapper Re.fem(Revolta
Feminina), que dirigiu o
documentário “Rap de Saia”; Patrícia
Freitas, de Salvador, além de
Elaine Ramos, formada em Comunicação,
cujo projeto de conclusão
de curso foi um documentário sobre
a vida de Tia Surica, da Portela.
A participação internacional
cumpriu o objetivo do evento, pois
aproximou os cineastas afro-brasileiros
da produção
cinematográfica contemporânea
africana,
tanto através do contato
com as obras,
como através da
participação em um
Seminário de reflexões,
não só com os
cineastas como com
os interessados no
tema. Promoveu-se
ainda uma enriquecedora
troca de experiência de diferentes gerações, com
a exibição de obras pioneiras e contemporâneas.
Os filmes, com
temática diversificada, possibilitaram
uma ampla visão do continente
africano. Foram onze produções
de África selecionadas, mas participaram
como convidados Mansour
Sora Wade, do Senegal, com o filme
o “Preço do Perdão”, Olá Bologum,
da Nigéria, com o filme “ A Deusa
Negra”, Zezé Gamboa, de Angola,
com o filme “O Herói”, e Newton
Auduaka, da Nigéria, com “Ezra”.
Para o idealizador e curador do
evento Zózimo Bulbul, a criação do
Centro Afro Carioca de Cinema, com
Bizza Viana, é um sonho antigo, um
espaço especialmente destinado a
exibir filmes de diretores africanos,
afro-brasileiros e afro-descendentes,
e os seus próprios filmes também.
Zózimo é um importante ícone do
cinema negro brasileiro, com destacada
participação no Cinema
Novo, nas décadas de 60 e 70,
quando atuou em filmes como “Terra
em Transe”, de Glauber Rocha, “Compasso de Espera”, de Antunes
Filho, e recentemente participou de “Filhas do Vento” de Joel Zito Araújo.
Entre outros trabalhos, Zózimo
dirigiu “Samba no Trem” e “Alma
no Olho”.
Em 1997, Zózimo participou
do FESPACO, um festival de cinema
e televisão Pan Africano, realizado
a cada dois anos em
Burkina Faso, e considerado o maior
festival cinematográfico do continente.
O cineasta confessa que,
na ocasião, levou um grande susto,
pois foi levado para um estádio
de futebol, com cerca de trinta
e cinco mil pessoas, para ver
cinema! E foi motivado por este
espírito de popularização do cinema
que o Centro Afro Carioca de
Cinema também foi criado. Para
seu idealizador, aos setenta anos,
o que se materializa agora é, antes
de tudo, um lugar de resistência,
uma vez que pretende manter
uma grade permanente para
exibição de filmes, além de um
espaço de encontros e reflexões
sobre a arte de fazer cinema.
Aos cariocas, o convite para
visitar o espaço já está feito e, aos
cinéfilos de outros espaços, também, é só chegar! O cinema negro,
brasileiro e internacional, agora tem
uma casa permanente no Rio de
Janeiro. Segundo Zózimo, o I Encontro
não pára por aí, ano quem vem
tem mais, e com convidados da
América Latina, quem sabe....
Serviço:
Centro Afro Carioca de Cinema
http://www.afrocariocadecinema.com.br/
Endereço: Rua Joaquim Silva, n. 40,
Lapa, RJ.
Festival FESPACO
http://www.fespaco.bf