Os primeiros ônibus chegaram no começo da tarde do dia 15 de novembro. Eram poucos. Foi durante toda a madrugada do dia 16 que a grande caravana com representantes de vários estados do Brasil entrou na capital federal. Uma típica emboscada do destino fez com que o último ônibus só conseguisse chegar por volta das 15 horas do dia 16. Veio de Pernambuco. Fica aqui registrada uma reverência para a garra e a persistência desta delegação. Os ônibus vieram cheinhos de gente bonita e resistente, cheinhos de inteligência**.
O ônibus de Porto Alegre chegou às 4 horas da manhã do dia 16. Foram 35 horas de estrada após uma partida dada às 17 horas do dia 14 de novembro para uma viagem que começou a ser construída alguns meses antes efetivamente, 310 anos atrás, simbolicamente. A bordo, elas eram a maioria, mas também vieram alguns homens e três crianças.
Quilombolas
Esta foi a segunda viagem na vida de Karina da Silva Elias, 20 anos, ensino médio completo. A primeira foi em 2004 para Capão da Canoas, uma praia no litoral gaúcho, localizada a apenas 135 km de Porto Alegre. Naquela ocasião, a jovem foi participar de um evento sobre quilombos. Para Brasília, ela veio acompanhada pela mãe, Rosângela da Silva Elias.
Mãe e filha são, respectivamente, cozinheira e secretária do quilombo urbano Morro dos Alpes, que está localizado na capital gaúcha, no bairro Glória e onde vivem aproximadamente 70 famílias. “A vida agora está melhor em todos o sentidos”, informam, referindo-se à recente “descoberta” de que pertencem a uma comunidade de remanescentes de quilombos. “Só sabíamos que éramos diferentes da comunidade que morava lá. Nossos costumes. A religião.”
Ao chegar na concentração da Marcha Zumbi + 10 a emoção de Karina transbordou. “É difícil explicar. É emocionante, forte. Poder estar aqui. Eu quero participar de tudo. A gente começa a se entender melhor conhecendo a história.”
Educadora
Colega de viagem de Karina, a educadora e oficineira Neide Gomes, coordenadora da Incubadora Morro da Cruz, durante toda a viagem a Brasília desempenhou simultaneamente os papéis de ativista e de professora. Acontece que Neide, que é professora da instituição São José de Murialdo, localizada na periferia de Porto Alegre, resolveu integrar na caravana da Marcha Zumbi + 10 três jovens oficineiros por ela monitorados. Para Neide, a participação dos jovens na Marcha seria uma aula prática de formação política e pedagógica, de geografia, de historia e de antropologia. Certamente que Jaqueline, Joel e Tiago, que ministram, respectivamente, aulas de capacitação em trança, rap e dança aos adolescentes negros do Morro da Cruz nunca vão esquecer desta professora, muito menos das lições apreendidas.
O embarque de Karina, Rosângela, Neide e dos jovens oficineiros do Morro da Cruz rumo à Marcha Zumbi + 10 é fruto da decisão típica das mulheres negras, guerreiras que construíram e constróem quotidianamente este país. Em Porto Alegre, elas organizaram-se no Coletivo de Mulheres Negras, que além de várias mulheres sem vínculo associativo, inclui representantes da Acmun (Associação Cultural de Mulheres Negras), da organização de Mulheres Negras Maria Mulher, da Ecaunisinos (Estudantes e Comunidade Afro da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos) e da Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora (a entidade negra mais antiga do Brasil em atividade, fundada em 1872 por negros livres sob o espírito das irmandades negras).
A partir da celebração do dia 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra, as atividades pró-Marcha intensificaram-se. De lá, até o dia 14 de novembro, o Coletivo de Mulheres Negras realizou reuniões toda segunda-feira. Os recursos “nós por nós mesmas” vieram de atividades realizadas em domingos, ao meio-dia, para possibilitar a presença das famílias. Uma feijoada e um chá tropical, que ofereceu quitutes africanos, viabilizaram-se graças à parceria com o bloco afro Odomode, estrategicamente acessível para pessoas vindas de vários bairros de Porto Alegre.
“Enquanto umas ficavam na articulação, as outras ficavam no fogão e vice-versa. Os quitutes para o chá foram feitos pela Ivone. A Isa, do Floresta, confeccionou uma cesta de café da manhã, que foi rifada, e que continha basicamente produtos da economia solidária. E foi assim que nós conjugamos o verbo estamos por nossa própria conta, retomando o conceito de irmandade negra e constituindo a irmandade da pós-modernidade”, sintetiza a psico-pedagoga Tânia Silva.
Empresária
Quando pensaram em contratar o ônibus para fazer a viagem, alguém lembrou de Luísa Helena Fernandes, uma mulher negra, formada em Turismo pela Pontifícia Universidade Católica, proprietária de uma agência de turismo. Estava assim garantido um transporte confortável e com preço acessível para todas e todos.
Na última hora, restaram algumas vagas no ônibus e uma articulação via Internet possibilitou que seis professoras de municípios do interior do Paraná também pudessem participar da Marcha. As professoras se deslocaram até a rodoviária de Curitiba onde embarcaram no ônibus vindo de Porto Alegre rumo a Brasília. Sorridente, a empresária Luísa Helena participou de todas as atividades da Marcha Zumbi + 10. Sua meta agora é investir em um tour pela rotas dos quilombos no Rio Grande do Sul.