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       Nº. 13 - ESPECIAL
Zumbi +10: uma marcha pela família negra

Cláudia Santos, Mestranda em estudos
étnicos e africanos (Ceao/UFBa)


Dona Zulmira e Janaína. Foto: Cláudia Santos.Claudinei de Freitas Marinho e Wanda Joaquim Rodrigues são ainda bem jovens, ele 27 e ela 26 anos. Estavam na Marcha Zumbi +10, no último dia 16 de novembro. Casados há seis anos, chegaram a Brasília na caravana do Grupo Kalunga de Capoeira – arte/luta que Claudinei pratica ao longo dos últimos seis anos. Ele conta que foi conduzido à capoeira pelo irmão mais novo, Ubiraci, que agora reside em Brasília, onde cursa Agronomia na UnB e também os acompanhava na marcha. Ele conta que “o diálogo no grupo é o mais importante pra mim, nos dá outra visão de mundo negro - a gente é estereotipado dentro de uma cultura que tem grande referencial europeu, eles nos deixam de fora, e para mim essa leitura só foi possível através da capoeira angola”.

Sandra, Elana e Iana. Foto: Cláudia Santos.O grande esforço do casal residente em Goiânia (GO), que além de ter viajado 208 km em 3 horas, se revezava para cuidar de duas crianças ao longo do percurso da Esplanada, tinha bastante sentido: “Acredito no resgate e na busca do reconhecimento cultural da nossa gente, trouxemos nossos filhos para despertá-los e envolvê-los no movimento”, diz Claudinei, e sentencia: “a escolha de participar será deles depois, não esperamos forçá-los mas queríamos que eles experimentassem este grande momento”. Wanda, que pela primeira vez participa de uma manifestação de rua, revela sua grande expectativa: “Se a gente não luta, a gente não consegue nada. Queremos que no futuro as coisas sejam melhores para nossos filhos”.

Paula e Tusilé. Foto: Cláudia Santos.Ubiraci de Freitas Marinho, carregando o sobrinho Gustavo de apenas um ano e meio, viu na marcha a possibilidade de defesa da cultura e ancestralidade negra, lembrando que “ancestralidade é uma das chaves para a conquista de poder, para conquista política”. Wanda reforça a crença na força da família reunida: “acreditamos que estamos dando um exemplo para outras pessoas que gostariam de ter vindo e de ter trazido seus filhos, é importante ter famílias participando”. Ubiraci complementa a fala de Wanda, afirmando que “para nós é importante criar essa ligação com nossas crianças, vamos juntos ao futebol, ao terreiro, à capoeira, queremos influenciar, por isso trouxemos nossas crianças para a marcha”. A felicidade nos olhos da pequena Thaís Amanda é grande, ela tem 6 anos, ainda tentando se localizar, diz que nunca havia visto tanta gente assim “invadindo a rua” e segue agarrada à mão da mãe.

A poucos metros da família de Goiânia, Paula Beatriz, educadora popular, me conta que vem de Porto Alegre, onde mora há cinco anos. Lamenta a ausência do marido que também é militante e não pôde vir, mas festeja a presença e a companhia da filha Tusilé, que tem 10 anos. A menina explica que seu nome significa “liberdade” em língua Yorubá e sabe bem porque veio à Marcha Zumbi + 10: “Eu quero lutar pelos direitos dos negros, dos afro-descendentes, dos quilombos” e na seqüência vai me contando que na sua escola há muitos casos de discriminação – ela cursa a terceira série do ensino fundamental e acha que se os colegas que a discriminam viessem à marcha, aprenderiam muito sobre a importância de se respeitar as pessoas negras.

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