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       Nº. 13 - ESPECIAL
Responsabilidade e autonomia - as lições do dia 16 de Novembro de 2005

Wania Sant’Anna, Historiadora/RJ


Estamos chegando ao fim de 2005 com lições de vida e de política inesquecíveis. No que diz respeito à luta anti-racista no Brasil, ativistas e organizações do Movimento Negro poderão afirmar isso com a exata responsabilidade que esta luta exige de todos nós. E o processo de organização da Marcha Zumbi+10 foi, neste sentido, um longo e educativo percurso. Educativo porque nos levou a: honrar as decisões tomadas em coletivo; avaliar ganhos e perdas colhidos em dez anos de trabalho duro; analisar os novos cenários de atuação política – erguidos com a inegável emergência de novos grupos e a atualização de temáticas e preocupações; torcer para que as negociações locais não fossem destroçadas por falsos argumentos e leviana descortesia.

No conjunto, esse histórico de mobilização não pode (e não deve) abrir mão do sentimento de êxito, glória e satisfação. Esses sentimentos são reflexos de um trabalho político tenaz e responsavelmente realizado. Não atravessamos as perigosas e esburacadas estradas deste país, por dias e noites, dividindo quentinhas, contando moedas por nada. Nós não enfrentamos a polícia e conquistamos, do chão, as audiências com o ministro da Justiça e com o presidente da República com as mãos e os cérebros vazios. Todos esses acontecimentos reais são resultado de ações anteriores e focadas em um objetivo: estar em Brasília para a Marcha Zumbi+10 no dia 16 de Novembro de 2005. Isso não é pouco.

Foto: Alexandra MartinsNão se vivem todas essas experiências, e outras, para chegar à conclusão de que o joio e o trigo são da mesma qualidade. Isso não é verdade. Existe muita verdade em se assumir, com galhardia, a ação do dia 16 de Novembro como uma conquista inestimável. Em um país que nos retira, cotidianamente, as conquistas, as realizações, os sonhos, a história e a auto-estima, nós não precisamos ter a mesma atitude de desrespeito com as nossas conquistas. Não há o que temer em assumir a ação do dia 16 de Novembro como sendo uma conquista de um coletivo e de uma perspectiva de combate ao preconceito, à discriminação racial e o racismo.

A autonomia, que hoje é reconhecida como fator diferencial na Marcha Zumbi+10, tem significado profundo e inclui, sobretudo, o histórico deste processo de organização. Tem significado profundo em níveis local, regional e nacional, cabendo-nos administrar os seus resultados. A autonomia se mostrou tanto possível como necessária. Possível porque enfrentamos, e vencemos, um conjunto significativo de restrições à livre manifestação política. Necessária porque, parece bastante transparente, que os nossos interesses e necessidades não estão sendo adequadamente conduzidos. Em democracia isso significa rever, em profundidade, o perfil e a conduta de “nossas” representações frente aos nossos interesses e necessidades.

No conjunto, o processo também demonstrou com inegável transparência que atrizes e atores – indivíduos e instituições – que lutam contra o racismo e a discriminação racial estão aptos a fazer avaliações singulares da persistente realidade de desigualdade racial e social brasileira. Essas avaliações singulares não se confundem com as avaliações de outros segmentos organizados da sociedade civil brasileira. Ou seja, temos, sim, a nossa interpretação independente e firme sobre as mazelas que atingem a população afro-brasileira e essa interpretação independente é inegociável. Nosso Documento – Manifesto à Nação –, a ocupação da Esplanada e as audiências retiradas do chão e sob os nossos gritos de protesto e indignação são exemplos incontestáveis desta interpretação independente e inegociável.