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       Nº. 11
As imagens da África e a imagem do banco



Lunde Braghini, Jornalista, mestre em Comunicação Social (UnB).




Depois de cidades como Rio de Janeiro, Pernambuco e Salvador, os 11 documentários e as 7 ficções da mostra Novo Olhar do Cinema Africano foram exibidos em Brasília, entre 14 e 26 de junho. Patrocinada pelo Banco do Brasil e pela Embaixada da França, a mostra dá o que pensar, no que respeita às contradições que cercam a circulação da produção cinematográfica africana no Brasil. Dá vontade de aplicar ao evento a frase com que Paulo Emílio, em 1970, relativizava e problematizava o aparentemente positivo amadurecimento do cinema político nos países secundários, como os do Terceiro Mundo: “Se o terreno escolhido fosse o da televisão, tudo importaria a ponto de não acontecer”.

“A mostra é imperdível”, diz o texto do Centro Cultural Banco do Brasil, no fôlder de divulgação, “considerando-se as raras oportunidades de acesso à produção audiovisual africana”. E, ainda, é “especialmente importante, levando-se em conta o papel daquele continente na formação da sociedade brasileira”. Sobre a contradição entre a “importância especial” e a “dificuldade de acesso”, nenhuma palavra mais. Fica sendo um fenômeno natural como a chuva.

O tema África, para o banco, é algo que agrega muito valor. Não é a primeira vez que o Banco do Brasil patrocina uma mostra de cinema africano. Mas deve lhe importar muito pouco que o evento fique restrito aos Centros Culturais e a pequenas salas onde apenas um público dito cult e majoritariamente branco cultiva a cinefilia e descobre “astronauticamente” sinais de cinema inteligente na África. O banco quer é ficar bem na fita. Recentemente patrocinou diretores como Daniel Filho, Carla Camuratti, entre outros, para produzirem “comerciais cívicos” – exibidos nas sessões da mostra – em torno de “valores” nos quais o banco acredita. “O Banco do Brasil acredita no valor da fraternidade”, por exemplo, era a mensagem do filme feito por Jorge Furtado.

Desinformação- Para além das informações de praxe – autoria, sinopse – o folder de divulgação da mostra Novo Olhar não ajuda o espectador a se situar nem sobre os países nem sobre atores e realizadores. Isso diz algo sobre a limitada intenção dos produtores da mostra de promover a assimilação deste material importante e de difícil acesso. Faz muita falta, em cinema, esse tipo de informação que contextualiza, que familiariza cinéfilos e espectadores inclusive com particularidades biográficas de diretores suecos como Bergman, espanhóis como Saura e Almodóvar, russos como Tarkóvski, japoneses como Ozu ou Kurosawa, italianos como Visconti ou Pasolini. Só sobra (quando não soçobra) a Internet, para pesquisar-se alguma coisa.

Às vezes, o folheto solidamente desinforma, como puderam constatar os espectadores de Esperando a Felicidade, de Abderrahmane Sissako, longa de ficção cuja sinopse e título parecem equivocados (na Internet encontra-se o filme referenciado mais adequadamente como À espera da sorte, na acepção de futuro incerto). Autor desse delicado filme sobre solidão e pequenas solidariedades, um dos destaques da mostra, Sissako nasceu em 1961, filho de pais mauritanos e malianos, e estudou na Rússia, onde dirigiu documentário sobre a condição de isolamento dos estudantes negros, tema cujo núcleo – desenraizamento, solidão – parece tangencialmente reiterado em Heremakono, título original do filme apresentado na mostra.

O filme de Sissako é uma co-produção entre Mauritânia e França. O peso da França, presente como parceira de produção em 12 filmes da mostra, reflete em parte sua operação política de manter ligação com ex-colônias, como Chade, República do Congo, Mauritânia, Senegal, Benin e Burkina Fasso, sede de um importante festival de cinema africano, com edições bienais, em Ouagadougou. Selecionadas pelo editor-chefe da revista francesa Africultures, a maior parte das 18 películas foi viabilizada por co-produções entre 11 países africanos e 5 países europeus.

Posando de benemérita e mecenas da sétima arte, a França faz com a francofonia coisa semelhante aos portugueses com a lusofonia: tenta legitimar sua presença, administrando a construção da memória da opressão que protagonizou. Memória entre duas margens, de Frédric Savoye e Wolimitè Sié Palento (Burkina Fasso/França), é um documentário construído a partir do contraponto entre relatórios dos colonizadores franceses e depoimentos orais dos netos e bisnetos daqueles que sobreviveram à investida francesa entre 1897 e 1902, na região dos lobis, a sudoeste de Burkina Fasso. Depois do filme, no qual ouviu relatos e viu fotografias históricas de atrocidades cometidas pelos franceses (como cozinhar uma cabeça humana, derramar azeite fervente nos ouvido de um cego e cortar e exibir – espetado num pau – o braço da companheira do guerreiro que procuravam), uma espectadora, de trinta e poucos anos, comentou: “a gente fica com vergonha de ser branca”.

Ideologia- Alguns espectadores viram na mostra, pela primeira vez na vida, um filme produzido por africanos no continente africano. E muitos debutamos mesmo, como espectadores de filmes produzidos no Chade, na Mauritânia, no Benin, em Burkina Fasso. Porém, a impressão que fica é que o universo de filmes selecionados provoca, no conjunto, um efeito diluidor, dispersador, para além de cada qual das películas familiarizarem positivamente o espectador com a produção cinematográfica africana em conjunto. Transportado de Camarões para o Zimbabwe ou para o Chade, como se mudasse de planeta, o espectador médio pode ficar mais inibido que estimulado a conversar sobre a África.

Nada é inocente em se tratando de como apresentar a África, por isso pesa tanto o desinteresse em prover o espectador de informações complementares. Moi et mon blanc (Eu e meu branco), de Pierre Yameogo, filme que aborda, dentre outros pontos, a situação dos bolsistas africanos na Europa (com padrões de discriminação dramaticamente semelhantes aos vivenciados por estudantes africanos no Brasil), atiça na platéia gargalhadas racistas semelhantes às que mostra no filme.

Já Ruanda in Memoriam produz um silêncio absoluto. Mas de nada adianta compreender, com o documentário, que o genocídio é estranho à cultura africana, ao contrário do que apregoa o racismo. Soturnamente, sem nenhuma ingenuidade, o filme é imediatamente sucedido na programação pela exibição de Zimbabwe: contagem regressiva, documentário em que o cineasta e ativista branco Michael Raeburn aborda sua trajetória de decepção política com o presidente Robert Mugabe, despertando sentimentos de medo, de desconfiança e de receio na platéia só equivalentes àqueles que levaram Heinrich von Kleist, o escritor preferido de Franz Kafka, a se referir assim ao Haiti, no início do século XIX: “em 1804, quando os negros chacinaram os brancos”... Aí se vê que a estaca ainda não saiu do zero.

Ficção:
Abouna, de Mahamat-Saleh Haroun (Chade, França, 2002); Esperando a Felicidade, de Abderrahmane Sissako (Mauritânia, França, 2002); Le Prix su Pardon , de Mansour Sora Wade (Senegal, França, 2001); Madame Brouette, de Moussa Sene Absa (Senegal, Canadá, França, 2002); Moi et Mon Blanc, de Pierre Yameogo (Burkina Fasso, França, Suíça, 2003); Nha Fala, de Flora Gomes (Guiné Bissau, França, Portugal, Luxemburgo, 2002); Tasuma, Le Feu, de Kolo Daniel Sanou (Burkina Fasso, França, 2003)

Documentário:
Contos cruéis de guerra, de Ibea Atondi e Karim Miské (Congo-Brazaville, Mauritânia, França, 2002); Poeira Urbana, de Moussa Touré (Senegal, Congo-Brazaville, 2001); House of Love, de Cecil Moller (Namíbia, África do Sul, 2001); Wa N‘Wina, de Dumisani Phakathi (África do Sul, 2001); Memória entre duas margens, de Frédric Savoye e Wolimité Sié Palento (Burkina Fasso, França, 2002); Ruanda in Memoriam, de Samba Félix N´Diaye (Senega, França, 2003); Zimbabwe: contagem regressiva (Zimbabwe, França, 2003); Si-Gueriki, Rainha-Mãe, de Idrissou Mora Kpai (Benim, Alemanha, França, 2002); Férias em casa, de Jean-Marie Teno (Camarões, França, 2000); Rastros, pegadas de mulher, de Katy Léna Ndiaye (Senegal, Burkina-Fasso, Bélgica, 2003); Xalima, la plume, de Ousmane William M‘Baye (Senegal, 2003).