Companhia teatral dirigida por
Aduni Beton representará o Brasil
no festival italiano de artes
Na estrada há praticamente nove anos, a Cia Tudo é Cena, dirigida por Aduni Beton, foi fundada em 13 de maio de 1996, com uma meta muito ousada: “estar inserida no mercado de trabalho, sem depender de alguém que nos convide”, revela a diretora. Para tanto, tudo foi muito bem pensado, a Cia. tem a missão de resgate, pesquisa, promoção e valorização da cultura negra, além de empregar e dar visibilidade a uma gama de artistas negros, atores, músicos, iluminadores, figurinistas, aderecistas, coreógrafos, etc.
A trajetória de resistência de Aduni Beton, de 41 anos, diretora da Cia. Tudo é Cena! já começa pelo dia do seu nascimento, 21 de março – Dia Internacional Pela Eliminação da Discriminação Racial. Bacharel em Artes Cênicas, com habilitação em Direção e Interpretação pela UNI-RIO, em 2000, é a 1ª mulher negra com este título de Diretora no Rio de Janeiro. Sua paixão pelo teatro começou em 1983, ainda no 2° grau, no Colégio Visconde de Cairu, na zona norte da cidade, no bairro do Méier. Depois não parou mais. Participou de vários grupos de teatro amador, se profissionalizou na Escola de Teatro Martins Pena e no Curso de Formação de Bailarinos de Dança Contemporânea de Angel Vianna e finalmente em 1994 foi para a faculdade de Direção Teatral na UNI-RIO, trabalhando com vários diretores, como Antonio Mercado, Renato Icarahy, Antonio Abujanra, Rubens Lima, Sergio Sanz, entre outros.
Tudo começou ainda na época de faculdade, na UNI-RIO, com um grupo de quatro alunos de interpretação e Aduni na direção. A realidade naquela época não era muito diferente: eram seiscentos alunos de Artes Cênicas e apenas cinco negros. Este reduzido grupo resolveu pesquisar sobre a cultura negra; descobriram o TEN, de Abdias do Nascimento e, em 1996, resolveram montar a Cia. É Tudo Cena!. A primeira peça foi “A Morte de Bessie Smith”, de Edward Albee, que conta a morte trágica da Imperatriz do Blues, vitima do racismo nos EUA, em 1937.
Hoje a Cia. conta com um grupo de veteranos e novatos. Estas pessoas foram selecionadas através do envio de currículo à sede, que se localiza no Centro Cultural Cartola – Mangueira, ou através de indicação de outros atores que já estão no grupo há mais tempo. Eles passam por uma entrevista, mas todos ficam muito à vontade para saber se vão se adaptar ou não, porque a Cia. ainda não é financiada, então é difícil, para os que moram mais distante do local de ensaio, pagar sua passagem e lanche, segundo Aduni. Porém, hoje este grupo investe no sonho, acredita que fazer parte de uma Cia. de pesquisa de teatro é importante para cada um deles, além do prazer de criar e conhecer sua história, sua origem negra. A menina do olhos do grupo é fazer um site, em que os artistas negros, não só os atores, possam ser contratados para trabalharem através de Cia., este sonho está somente aguardando um patrocínio.
Os temas são escolhidos a partir de uma pesquisa coletiva do grupo. Atualmente estão seduzidos pela trilogia que iniciou com A Mitologia dos Deuses Africanos - Orixás, de Luiz Motta, que conta o mito de Xangô e suas três mulheres Obá, Oxum e Iansã. A idéia é contar, também, outros mitos já que a mitologia não se esgota, permitindo várias possibilidades de leituras. “Além disso chegam textos de autores que nos procuram, mas ainda não existe verba para a produção”, diz Aduni.
A diretora reconhece que ainda são poucas mulheres diretoras de teatro. Em recente visita a Salvador, para participar do Fórum Nacional de Performance Negra, eram cinqüenta companhias e vinte e uma mulheres representantes, sendo que de teatro apenas doze. Para Aduni, é necessário um diálogo mais próximo entre as diretoras que estão atuando no cenário nacional, para que trocas mais efetivas possam acontecer. Para os “globais” a mídia e as estatais estão a serviço, já a maioria dos grupos de teatro e dança negros não possuem um espaço para trabalhar, desenvolver seus projetos ou simplesmente guardar os seus acervos; isso sem contar no local para ensaiar, além de não poderem colocar um ingresso com preço mais caro, porque os locais em que se apresentam, em geral, são em comunidades que não têm como pagar. E não “temos dinheiro para alugar um teatro na zona sul para mostrar nosso trabalho, então é um círculo vicioso”, desabafa.
Convidada pelo diretor Pino di Buduo, do Teatro Potlach, da Itália, que teve oportunidade de conhecer o grupo em 2004, em cartaz no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, a Cia. já está com as malas praticamente prontas, para participar da 5ª edição do Festival Internacional do Centro Histórico de Farfa/Itália. A montagem atual sofreu algumas mudanças, para atender a um espetáculo de rua, algumas cenas foram cortadas, novas músicas passaram a fazer parte do repertório e o resultado ficou muito dinâmico, sem perder a essência da peça. Além do Brasil, participarão grupos de Cuba, Colômbia, Índia, Áustria e da própria Itália. O período é de 05 a 18 de agosto deste ano. O festival oferece hospedagem, alimentação, transporte interno, mas não as passagens aéreas, para as quais o grupo está aguardando a confirmação do Ministério da Cultura.
Serviço:
De 26 a 31 de Julho - Local: Centro Cultural Cartola – Mangueira/RJ
24 de agosto: Teatro Odylon Costa Filho – UERJ.