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       Nº. 11
O momento é de afirmação política
Edson Lopes Cardoso

Ministro Celso Amorim“Na minha geração havia uma crença de que não há um problema racial, e sim um problema social, e que se resolvêssemos o problema social nós resolveríamos o problema racial. Creio que a questão, hoje em dia, se coloca no sentido inverso”.

A frase é do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, num painel em Brasília, no dia 29 de junho. Trata-se de uma inversão que coloca em destaque a importância do racismo e das práticas de discriminação racial na estruturação das desigualdades brasileiras.

Podemos afirmar com segurança que a linha de argumentação que sustenta a inversão citada pelo ministro foi construída e disseminada pelo Movimento Negro, protagonista no processo longo e penoso que gerou esse novo enfoque que agora alcança a consciência de representantes de primeiro plano da administração pública federal.

Mas a frase utilizada pelo ministro omite o agente. A questão se coloca, é colocada, por quem? Reconhecer a centralidade da questão racial é fundamental para o combate efetivo à pobreza e à exclusão, isto é, com conseqüências práticas na vida de milhões de pessoas. Mas é preciso reconhecer o protagonismo negro para além dos limites de uma ação meramente reivindicatória, se, de fato, queremos mudança..

A inversão a que se referiu Amorim permite antever um redirecionamento das políticas públicas. Mas o não reconhecimento do protagonismo negro permite, por sua vez, antecipar o quanto essas políticas podem ser adiadas, ou aplicadas de modo distorcido, desvirtuado, superficial, como mero paliativo.

É extremamente relevante o reconhecimento da importância das desigualdades raciais, mas elas são desigualdades entre pessoas e a superação do sistema que produz desigualdades tão profundas só poderá acontecer de verdade com a ampliação da participação política, do engajamento daqueles diretamente interessados na mudança do quadro injusto.

Entre nós, o reconhecimento da importância da questão racial, reconhecimento conquistado a duras penas, vem acompanhado com freqüência da negação da participação política do negro como um segmento organizado e autônomo do movimento social.

De um lado, reconhecem-se as desigualdades, mas se negam as práticas racistas do cotidiano que recriam e reforçam as mesmas desigualdades. Não há, portanto, responsabilidades. De outro lado, se reconhece, tardiamente, a importância das desigualdades raciais para a manutenção da pobreza e da exclusão, mas continuamos a negar a participação política do negro fora dos limites colocados pela tutela branca ( nos partidos ou fora deles).

A idéia de que reivindicamos para que outros façam é falsa. Nada, em mais de quinhentos anos de história de opressão racial, autoriza e justifica que os negros se deixem embalar por essa ilusão. Nossas reivindicações por políticas públicas coexistem, intimamente, com nossa reivindicação por direitos políticos plenos.

Não queremos participar apenas da montagem de uma foto com o presidente da República. Repudiamos o instantâneo fotográfico de natureza populista, assim como toda subalternidade que caracteriza quase a totalidade da inserção negra institucional. Queremos aprofundar nossa experiência de luta e organização para a conquista efetiva de poder político.

A construção da Marcha Zumbi dos Palmares + 10 ocorre numa conjuntura de crise político-partidária, o que exige de nós a disposição para afirmarmos o Movimento Negro como sujeito político, que faz denúncias, que reivindica, mas que exige, por sua trajetória e essencialidade, o direito de participar das decisões que afetam a vida de todos.

Na construção da Marcha, além de elencarmos nossas reivindicações dirigidas ao Executivo e ao Congresso Nacional, devemos ser capazes de elaborar, com ampla participação, uma fala à Nação, que expresse a conquista de nossa maioridade política e esteja à altura de nossa relevância histórica, social e econômica.

Queremos opinar e sugerir, queremos dirigir, decidir, queremos comando, queremos monitorar e implementar, queremos a gerência de recursos públicos, queremos o controle das riquezas que ajudamos a construir.