O que é um negro? E, em primeiro lugar, de que cor é um negro? É desta maneira, provocativa que a platéia é convidada a entrar no universo do teatrólogo francês, Jean Genet, na montagem de Os Negros, encenada pela Cia. Black&Preto. A peça foi escrita em 1958, já esteve em cartaz em Paris, Nova York e teve uma primeira montagem brasileira, em 1989, na cidade de São Paulo, sob direção de Maurício Abudi, além de Recife e Salvador. Por todos os locais onde o espetáculo passou, sempre causou grande furor.

Em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, desde o dia 06 de abril, a montagem atual, respeita na íntegra a única exigência de Genet: o elenco tem que ser todo negro e, desta maneira, Luiz Antonio Pillar, conseguiu acertar no tom, ao dirigir um grupo formado por treze atrizes e atores negra(os) talentosas(os), neste espetáculo.
O texto é bem denso, uma marca de Genet e do diretor Antonio Pillar, que sempre opta em explorar ao máximo as tessituras e tramas das palavras contidas em suas montagens. O texto não tem a pretensão de ser linear, nem tampouco a marca do tempo e do lugar, são elementos explícitos, ao longo do texto, o que não significa que o resultado seja comprometido, na realidade Os Negros é completamente ritualístico.
O dramaturgo, Jean Genet, nasceu em Paris, em 1910 e teve uma trajetória completamente marginal, inclusive para os tempos atuais. Por conta de pequenos furtos, passou parte da infância em um reformatório, com a continuidade dos delitos foi parar na cadeia. De personalidade polêmica, assumiu já no inicio da década de 50 sua homossexualidade e sua obra sempre refletiu este universo, que circulava através da solidão, do submundo do crime, da exclusão e opressão social.
O pano de fundo desta trama é o assassinato de uma mulher. O espetáculo divide o elenco em dois grupos, a corte francesa, que usa máscaras brancas e no cenário estão localizados em uma plataforma, vendo os oprimidos de cima e no outro plano, embaixo, estão homens e mulheres comuns, que constroem um mundo à parte da realeza, pois vivem intensamente suas próprias fantasias, entremeadas pelo julgamento de um negro traidor. E este grupo possui um papel bem interessante ao longo do espetáculo, pois funciona como uma espécie de guia para o espectador entre os dois mundos da encenação, de suas fantasias do cotidiano enquanto negras e negros, e do diálogo com a realeza. A técnica do metateatro foi bem empregada, já que atrizes e atores transitam no plano da ficção e do real, no dilema ser e parecer.
Esta peça, para Genet, é uma “clowneria”, o que no bom português se traduz literalmente por palhaçada, o que para o dramaturgo francês representa o fato de que um grupo domine o outro em função da cor da pele. O diretor Luiz Antonio Pilar considera que na verdade Genet não discute a questão racial, mas sim analisa o comportamento do ser humano frente à dominação. Para o diretor o texto tem uma dualidade interessante: por um lado, ele já está historicamente ultrapassado; mas, por outro, ele guarda questões ainda não resolvidas, na sociedade brasileira, sobre a representação do racismo. De qualquer forma, na dramaturgia universal não existe um texto sobre esta questão, tão bom quanto o de Genet.
Um dos grandes desafios para esta montagem foi o de como recriar este universo em uma outra língua e outra cultura? Para isso contou com o “auxílio luxuoso” de Fátima Saadi, tradutora do texto, que começou o processo de tradução em 1985, ano em que Pilar comprou os direitos da peça. Elementos da cultura brasileira, principalmente a mistura de sons que vai do funk ao erudito, foi o tom correto, sem folclorização, que o diretor musical, Gabriel Moura, encontrou para recriar o universo de Genet com uma pitada afro-brasileira.
Mas o que significa falar de dominação de um grupo sobre o outro, quando o que se tem como cenário é a realidade das relações raciais no Brasil, e o que se tem diante dos olhos é uma companhia de atrizes e atores negras(os), a Cia. Black & Preto, representando a polaridade da relação de dominar e ser dominado? A atriz Iléia Ferraz, que nesta montagem é a Rainha, considera “que desta vez está mais tranqüilo” do que na primeira vez que encenou este mesmo espetáculo, em SP, no papel de Neve, “pois já se passaram 15 anos e já se tem mais reflexão sobre o negro na sociedade brasileira”, mas Iléia avalia que ainda há muito espanto por parte da platéia, principalmente ao ver 13 atores negros em cena, falando um texto que não está ligado às questões das relações raciais mais freqüentes em nosso país, pois é outro lugar, outro texto, outra maneira de falar de exclusão.