Contato
Imprima
Indique a um amigo
Comente
       Nº. 10
Julio Romão – um sonho de liberdade
Por: Stânio de Sousa Vieira e Mairton Celestino
Foto: Jorge Lima



Nos seus 89 anos de vida, o escritor Júlio Romão da Silva, concedeu entrevista ao jornal ÌROHÌN e expõe um currículo de obras e acontecimentos nos seus longos anos de luta contra a desigualdade racial no Brasil.






Ìrohìn : Como o senhor analisa o percurso de vida de Júlio Romão da Silva?
Sr. Júlio Romão da Silva - O meu percurso de vida foi uma aventura orientada por um sonho, um sonho de liberdade e também de crescer na vida me libertando do estreito e preconceituoso mundo em que vivo. Saí de Teresina que era uma cidade pequena, em 1936, e cheia de doutores, pessoas importantes e tradicionais. Eu não tinha tradição de família. Parti de Teresina com apenas as ferramentas de marceneiro. Viajei até São Luís de carona em um trem e de São Luís para o Rio de Janeiro em um navio cargueiro, chamado Santos, que me levou no porão na condição de retirante que ia do Nordeste fugindo da fome em busca de melhores dias. Ao chegar no Rio dormi a primeira noite num albergue da Boa Vontade, na Praça da Harmonia. Filho de pobre, sozinho, preto, sem patente, dormi com mendigos e vagabundos da pior espécie.

Ainda fui lavador de latrina em um escritório de advocacia. Um dia, porém, resolvi procurar outro meio de viver e não sei o que aconteceu de repente estava sendo jornalista. A partir daí, descobri que tinha vocação para a imprensa. Cheguei a fazer curso universitário em Comunicação Social e alguns cursos de pós-graduação.

Foto: Jorge LimaEnfim, eu não tenho muito do que me queixar porque ao invés de pedir emprego e ficar escravizado aos empregos públicos de favores, eu procurei me tornar útil. Um grande negro norte-americano dizia: “ O negro vence, quando fizer melhor que ninguém aquilo que todo mundo faz.” E eu procurei fazer isso.

Ìrohìn : O que o motivou a escrever e estudar sobre o mais conseqüente poeta satírico brasileiro, Luís Gama?
Sr. Júlio Romão da Silva - Eu escrevi sobre grandes negros do Brasil, Dom Silvério Pimenta, Bispo de Mariana – MG, Teodoro Sampaio – o maior tupinólogo do Brasil e um dos maiores engenheiros, um sábio negro do nosso tempo.Ainda constam de meus estudos, André Rebouças e José do Patrocínio. Em relação a Luís Gama, tenho admiração pela sua persistência em vencer. Eu fiz minha obra geral destacando as poesias abolicionistas satíricas. Nos temos que resgatar os valores negros que ficaram à margem para lutar, como Luís Gama, pela libertação de nosso povo, de nossa raça. Ele, que foi escravo, experimentou a amargura da servidão e se tornou um advogado extraordinário e colocou o talento dele como orador e profeta da República.

Como disse José do Patrocínio: “ ... Como é grande, Luis Gama, em comparação com esses miseráveis que só sabem entender a desgraça e forjar nos seus gestos satânicos doutrina de estigmas perpétuos.”

Ìrohìn : O senhor em seus textos e entrevistas, sempre demonstrou preocupação com a qualidade do ensino brasileiro. Então como o senhor avalia o atual modelo de educação no Brasil?
Sr. Júlio Romão da Silva - Acredito que o modelo de ensino fundamental e médio deva ser repensado, enfocando no processo de ensino-aprendizagem elementos plurais da cultura brasileira.

Quanto ao ensino superior, nos meus tempos de aluno da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, os professores não reprovavam ninguém, simplesmente colocavam o assunto no quadro e dizia: “ ... Vocês vão estudar depois, eu ensinei, agora todo mundo anote, quem não anotar o problema é seu.” Infelizmente esse modelo de ensino, ainda hoje, persiste em algumas instituições de ensino superior.

Ìrohìn : O senhor tentou ingressar por três vezes na Academia Brasileira de Letras. Por que, embora tenha durante a sua estada no Rio de Janeiro tido funções de destaque e reconhecimento no mundo acadêmico, mesmo assim não conseguiu uma cadeira na ABL?
Sr. Júlio Romão da Silva – Eu abri mão por duas vezes, uma para Carlos Castelo Branco, também piauiense que estava praticamente eleito e acreditava que ele tinha mais condições naquele momento. E como piauiense resolvi apoiá-lo. Já tínhamos dois representantes do Piauí, na ABL: Odilo Costa Filho e Diolindo Couto. Na outra oportunidade, abri para o gaúcho, Carlos Nejar. Pois como tinha falecido um gaúcho, esse estado ficou sem representante e o então presidente da ABL, no qual era bem próximo, me pediu para que eu abrisse e aguardasse outra oportunidade. A terceira candidatura foi no ano de 2003, mas estava morando em Teresina e perdi as referências.

Sou muito querido na ABL, como se fosse membro. Não guardo mágoa e nem ressentimento, mas grandes amizades, e acredito que estão preparando algo para mim na ABL, espero que seja o prêmio Machado de Assis, pois já tenho uma porção de prêmios da própria ABL. Como consolo, ocupo a cadeira 31, na Academia Piauiense de Letras, conquista acontecida por votação, em 1989.

Foto: Jorge LimaÌrohìn : O senhor participou de várias atividades políticas enquanto esteve no Rio de Janeiro. Quais dessas atividades o Sr. destaca?
Sr. Júlio Romão da Silva – A liderança no Movimento Municipalista Brasileiro e da Frente Igualitária Brasileira, ambos movimentos da década de 40, em que fui um dos pioneiros. Estiveram presentes nesses agitados anos da política brasileira: Luís Carlos Prestes, líder da Aliança Nacional Libertadora, os atores Abdias Nascimento e Aguinaldo Camargo; os Professores Rodrigues Alves e Pinheiro Ramos e os esquerdistas Raimundo Sousa Dantas, Solano Trindade, Aladi Custódio e eu, dentre outros.

Ìrohìn : Qual a sua participação político-partidária?
Sr. Júlio Romão da Silva – Eu retornei para Teresina a trabalho no inicio da década de 50, e me candidatei à Câmara Municipal. Fui eleito Vereador, mas por divergência política e interesse pessoal não assumi e retornei para o Rio de Janeiro. Ainda, cheguei a ser Deputado Estadual no Rio de Janeiro, em 1963, como primeiro suplente. Assumi o cargo, porém foi às vésperas do golpe de 64.
1 | 2 >>