Vítimas do preconceito, da discriminação e de atitudes racistas. Essa é a realidade dos negros e negras que vivem na Suiça, um pequeno país de 7 milhões de habitantes, de maioria branca, localizado no centro da Europa, mas que se recusa a fazer parte da União Européia.
O resultado acima foi revelado num estudo inédito na Suíca, encomendado pela Comissão Federal contra o Racismo, e publicado esse ano com o título: «Os Negros na Suíça, uma vida entre integraçao e discriminação». Realizado por duas pesquisadoras, também negras e suiças: Carmel Fröhlicher-Stines e Kelechi Monika Mennel, o principal objeto do estudo foi o cotidiano das pessoas negras no país e partiu de três questões principais: O que vivem os negros que moram na Suiça, como eles interpretam essas experiências e como eles as enfrentam.
De acordo com o estudo, os negros e negras, que já são 0,6% da população suíça, são frequentemente perseguidos(as) como um grupo homogêneo, cujo estereótipo associado é do comportamento criminal, no caso dos homens, e de prostituição no caso das mulheres.
As pessoas interrogadas, estrangeiras ou não, normalmente já estão bem integradas no ambiente social. Elas têm emprego, amizades, mas confessam: não se sentem bem aceitas pela sociedade em geral.

A principal reclamação é, sobretudo, em relação aos olhares nas ruas e lugares públicos, normalmente interpretados como negativos: « todo mundo me olha como se eu fosse um estrangeiro, ou com um olhar acusador, como se a qualquer momento eu fosse fazer algo de ilegal», declara um dos entrevistados. Logo, são também freqüentes as revelações de que no trem ou nos ônibus, os lugares ao lado delas ficam sempre vazios, e que muitas vezes sentem-se ignoradas.
Esse tipo de racismo, que na pesquisa é definido como latente, oculto ou que não se pode provar, incorpora uma outra realidade no cotidiano dessas pessoas e dificulta a integração, mas se pode driblar com o menosprezo, como parece fazer a maioria. Mas o estudo também revela uma outra realidade, ainda mais difícil de enfrentar: os ataques racistas violentos. Eles se referem principalmente à perseguição policial contra homens negros, uma prática que tenta se justificar com a suspeita de que há uma rede africana de tráfico de drogas no país. No entanto, instituições como a Comissão Federal Contra o Racismo têm conhecimento de inúmeros casos de trabalhadores agredidos por policiais sem nenhuma razão: «aqui na Suíça é muito forte a idéia de que se você é negro, logo é traficante de drogas e não é só por parte da polícia. Sempre que ando nas ruas os usuários se dirigem a mim perguntando se eu tenho algo pra vender». Essas foram as palavras de Gerome Tokpa, originario da Costa do Marfim.. Ele mora há dois anos na cidade de Berna, capital da Suíça, onde trabalha como geólogo.
O aumento da população negra na Suiça é recente. Criadora da Cruz Vermelha e com uma reconhecida tradição humanitária, que atuou principalmente na África, a Suíça atrai cada vez mais africanos e africanas que chegam aqui para estudar ou trabalhar, muitos acreditando ser a Suíça, um paraíso acolhedor. Segundo o Escritório Federal de Estatística, entre 1990 e 2002, 22.676 pessoas imigraram da África para a Suíça. Hoje, 2,9% da população estrangeira são originários da África.
Diante desses números, a principal reivindicação que as autoras do estudo fazem ao Estado suíço é a de promover uma política de abertura ao multiculturalismo e que possibilite a integração de diferentes grupos étnicos e a aceitação recíproca dos mesmos. Segundo Carmel Fröhlicher, «o governo suíço tem muito sucesso em suas campanhas, como foi por exemplo no combate às caries em crianças. O racismo também é algo que se combate , mas nunca existiu aqui alguma iniciativa do Estado contra o racismo ou em favor da multiculturalidade no país». Essa afirmação é complementar a outra d, Gerôme Tokpa: «na Suíça, o racismo não é uma questão individual, mas sim uma questão de Estado, de governo, um problema político».
Na Suíça, o poder está nas mãos da União Democrática do Centro (UDC), um partido de extrema direita chefiado por Christopher Blocher, também chefe do Departamento Federal de Justiça e Polícia, órgão responsável pelo controle imigratório. Blocher é um homem extremamente nacionalista, apegado às particularidades suíças e em suas declarações sempre culpa a imigração por por todos os problemasque o país enfrenta, como o aumento dos roubos, assaltos, brigas e tráfico de drogas. A última de suas mensagens mais polêmicas foi «Vamos aos fatos: alguns grupos étnicos estão muito representados na população carcerária».