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       Nº. 10
Quarta visita de Lula
A África ficou mais longe
Foto: Daniel Cardoso

Renata da Silva Nóbrega, Bacharel
em Relações Internacionais/UnB


Como parte do esforço de aproximação do Brasil com os países do Sul e, especificamente, com os países africanos, o presidente Lula realizou sua quarta visita à África, entre os dias 10 e 14 de abril. Dos países visitados - Camarões, Nigéria, Gana, Guiné-Bissau e Senegal - Lula recebeu declarações de apoio à reivindicação brasileira de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, uma das principais bandeiras da política externa do Brasil. Em contrapartida, Lula declarou que a democratização do Conselho de Segurança depende também da inclusão de representantes de todos os continentes, inclusive da África. A visita marcou o pontapé inicial para a organização da Cúpula América do Sul - África, sugerida pelo presidente da Nigéria e que pretende reunir os chefes de Estado das duas regiões.

Presidente Lula e o Presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, durante visita à Casa dos Escravos na Ilha de Gorée, em 14 de abril.O interesse brasileiro na África ultrapassa laços históricos e culturais - destacados na visita de Lula à comunidade de ex-escravos que retornaram à África, os Tabom, em Gana - e as parcerias em cooperação técnica. As oportunidades de negócios nos países africanos foram o foco da cobertura da imprensa nesta viagem. O próprio Itamaraty descreveu os países visitados a partir de seu potencial econômico, destacando a riqueza mineral de alguns deles. A África aparece como um continente rico, quase virgem, pronto para ser explorado pelos brasileiros. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, declarou: “nada que possa aumentar a produção e o emprego no Brasil pode ser desprezado”. E depois se frustrou com as restrições aos produtos brasileiros impostos pelos países africanos, afinal, a estimativa era de que os negócios ultrapassassem US$ 1 bilhão.

Na Guiné-Bissau foram anunciadas cem bolsas no valor de até um salário mínimo para auxiliar a permanência de estudantes africanos que já se encontram no Brasil (em nenhum momento se traçou um paralelo com a situação econômica dos estudantes negros brasileiros em nossas universidades). Lá também foram destacadas as doações brasileiras de US$ 500 mil para a reestruturação das Forças Armadas e de outros US$ 550 mil para um projeto de desenvolvimento agrícola. Os programas de cooperação agrícola nos outros países incluíram transferência de tecnologia para o cultivo de produtos tropicais e, no Senegal, para o combate biológico ao gafanhoto. A partir do Acordo de Serviços Aéreos foi criada uma linha aérea direta no trecho Brasil-Gana e se espera que isso aumente o intercâmbio entre os dois países. Apesar dos avanços nas negociações, o acordo para transferência de tecnologia na área de combate ao HIV ainda não foi fechado.

Os acordos firmados com Camarões e Nigéria para o intercâmbio de professores africanos com a finalidade de colaborar com a implementação da lei 10639 - que institui o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas brasileiras - foram um dos destaques da visita. Se por um lado esses acordos oferecem profissionais especializados para o Brasil, por outro criaram a expectativa de que por si só resolverão as dificuldades de implantação da Lei 10.639, desobrigando os órgãos responsáveis de adotar medidas concretas para o sucesso da lei. Situar (somente) na África a solução para o etnocentrismo da educação brasileira significa ignorar ou rejeitar o que existe de cultura africana no Brasil. Mais que restrições de ordem material, o que atrasa a implementação da Lei 10.639 é a resistência às suas implicações radicais, que são o questionamento do conhecimento eurocêntrico dominante nas universidades e nos órgãos de fomento à pesquisa e o reconhecimento da presença africana na sociedade brasileira.

No Senegal, Lula pediu perdão pela escravidão, mas lembrou que não tem nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu no passado. Posição coerente com o reduzido orçamento destinado às políticas de promoção de igualdade racial: não há compromisso com a luta anti-racismo que ultrapasse o discurso. A cobertura da mídia deu grande destaque à atitude de Lula, mas em nenhum momento se falou das conseqüências da escravidão hoje. Meu erro! O presidente destacou que se “não fosse a miscigenação, não teríamos o povo maravilhoso que o brasileiro é”. O racismo sequer foi mencionado, afinal, segundo uma nota do Itamaraty a respeito de outra viagem à África, o povo brasileiro é dado à “convivência pacífica”, lição a ser ensinada nos países africanos, assim como os valores democráticos do Brasil. A África ficou longe, congelada como o continente de guerras, miséria, corrupção e festas. E como o continente dos negros. Bem longe do Brasil.