TESE
Controvérsias e importância do quesito cor
Governo engatinha na melhoria da assistência à saúde da população negra. Maioria das ações limita-se a seminários, grupos de pesquisa, levantamento de dados e lançamento de pilotos
Amália do Nascimento Sacramento
No Brasil, o resultado das relações desiguais de raça/cor e de gênero se conjugam para determinar perfis diferenciados de morte e de acesso a bens e serviços entre as próprias mulheres, pois, para citar um exemplo, a mortalidade materna é maior para as mulheres negras quando comparadas às brancas.
Em que pese a importância do registro da cor/raça nos documentos da área da saúde, tendo em vista um redimensionamento do perfil epidemiológico da população, a identificação racial, através do quesito cor, envolve amplo conjunto de opiniões, comportamentos e representações sobre a cor ou raça calcados, de certo modo, na idéia da superioridade racial.
No recente estudo sobre a importância do quesito cor na assistência às mulheres durante o pré-natal, realizado em Salvador/Bahia, foi possível perceber o quanto há, de fato, de estigmas e complexidades no que tange à discussão sobre a identificação racial.
Os resultados deste estudo mostram representações dicotômicas entre pessoas que se autoclassificaram como brancas e as que se autoclassificaram como pretas, revelando ser o quesito cor “sem importância” para as brancas, justificando que outras categorias são mais influentes no processo de adoecimento das pessoas, como a classe social, idade e escolaridade; apontam a discriminação e a questão racial como um problema dos negros.
Por outro lado, o quesito cor é representado, pelo grupo de pessoas pretas, como uma questão importante, revelando as vulnerabilidades no processo saúde-doença com desvantagens para as pessoas negras (pretas e pardas). Essa vulnerabilidade é atribuída pelas entrevistadas à existência de doenças genéticas como a anemia falciforme; por não terem direitos efetivados e possuírem dificuldades de acessos aos bens sociais disponíveis; vulnerabilidade acentuada ainda pela intersecção da cor com a classe social e com a maior exposição ao risco de discriminação e tratamento injusto posto pelo racismo individual e institucional.
A identificação da cor é representada ainda, tanto para gestantes quanto para profissionais do estudo, como ofensa, preconceito, discriminação, racismo e novidade, assinalando como é “complicado” a classificação da cor.
Relatos de profissionais de saúde que participaram do estudo indicam não haver diferença no atendimento com base na cor, entretanto, muitos reportaram já ter presenciado práticas discriminatórias e preconceituosas de outro(a)s profissionais, baseados na aparência, explicitando um racismo operando em sua sutileza.
As dificuldades de utilização/implantação do quesito cor por profissionais envolvidos no estudo podem ser inferidas pela representação do racismo como problema do outro, revelado na expressão “é o próprio negro que se discrimina” e nos relatos que indicam que a cor é sobrepujada pela classe social, escolaridade e idade.
Os relatos dos sujeitos do estudo, apontando o quesito cor como uma questão ainda “complicada”, que exige preparo para ser abordada, sinalizam para a importância de ampliação de ações educativas para conscientização e sensibilização da população e, sobretudo, de profissionais da saúde sobre a importância do racismo como categoria estrutural de desigualdade social.
*Trata-se de reflexão produzida a partir do estudo intitulado "Importância do quesito cor na assistência pré-natal: representações sociais de gestantes e de profissionais", de autoria de Amália do Nascimento Sacramento e orientação da profa. Enilda Rosendo do Nascimento. O estudo foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Bahia para obtenção do título de mestra.