Contato
Imprima
Indique a um amigo
Comente
       Nº. 10
Maio: escritores e policiais celebram o mesmo ofício
Edson Lopes Cardoso

Foto: Daniel CardosoNo mês de maio, o combate costuma se acirrar. A presa em disputa é o passado. O conteúdo do passado em disputa é a escravidão e, obviamente, suas implicações políticas, sociais e econômicas no presente.

“Não foram os portugueses que escravizaram os negros”, declarou à revista “Veja” o escritor João Ubaldo Ribeiro, com a autoridade de “3 milhões de exemplares vendidos ao longo da carreira” (edição 1905, ano 38, nº 20).O renomado poeta Ferreira Gullar disse o mesmo na “Folha de S. Paulo”, muitos outros repetiram por aí a surrada cantilena, uma representação distorcida da realidade histórica bastante conveniente aos interesses daqueles que se beneficiam da opressão racial e da subalternização dos negros.

À primeira vista, pareciam responder ao pedido de “perdão” teatralizado pelo presidente Lula na visita ao Senegal. Mas só aparentemente. Fiquemos com João Ubaldo Ribeiro, considerado por muitos o maior escritor brasileiro vivo. Uma entrevista sua às páginas amarelas da revista “Veja” é, sem dúvida, uma mensagem propagandística de alta circulação.

Pode-se imaginar quantos educadores assinam a revista, que é a quarta ou quinta em número de exemplares, numa escala mundial. A entrevista do admirado escritor fortalece as razões pelas quais esses educadores devem continuar resistindo à implantação da Lei 10.639, que introduz o ensino de história da África e cultura afro-brasileira nas escolas de primeiro e segundo grau – uma legislação criada exatamente para impedir que se perpetuem no sistema de ensino aberrações como aquelas difundidas por João Ubaldo.

A mistificação ideológica que responsabiliza os negros pela montagem do sistema escravista colonial ajusta-se dramaticamente à ilusão de brancura no plano pessoal. Na mesma entrevista, o escritor mostra-se preocupado em inventar para si mesmo uma tradição genealógica de branquidade e rechaça de forma patética a identidade negra.

O escritor é recorrente nesses delírios, agora pós-etílicos. Em 15 de outubro de 1997, ele foi entrevistado por Beth Néspoli de “O Estado de S. Paulo”. O autor acusava então o Movimento Negro de provocar a perda “do país miscigenado mais bem sucedido do mundo”. Ele estava muito abalado com o avanço da Consciência Negra, que destruía aquilo que ele supunha, como obra ideológica, um colosso de consistência. A entrevista era a propósito do lançamento de “ O Feitiço da Ilha do Pavão”, uma obra medíocre em que homens e mulheres negras se arrastam diante dos desígnios humanizadores de heróicos personagens brancos. No capítulo dedicado ao “Quilombo”, seres corrompidos moralmente pregam o culto à pureza racial. Foi a sua resposta ao avanço da Consciência Negra.

Volta e meia ele ataca outra vez, ajudando a desmobilizar vontades, refazendo o passado de modo a bloquear ou desestimular mudanças no presente de nossas desigualdades raciais.

A edição de “Veja” com a entrevista de João Ubaldo começou a circular no mesmo domingo de maio em que Jamys Smith da Silva, 20 anos, negro, foi espancado barbaramente até a morte por dezenas de policiais da Polícia Militar de Londrina.

Foi assassinado em casa, junto à família, quando comemorava seu aniversário. Os soldados destruíram o som, que os vizinhos disseram que estava muito alto, e trucidaram Jamys, sem piedade.

Os intelectuais vão às revistas e aos jornais negar a história, fazer deboche do recalque da identidade negra e os policiais trucidam as pessoas. Cada um faz a sua parte na obra de extermínio do negro em curso no Brasil.

A Marcha Zumbi dos Palmares, de 1995, era contra o racismo, pela igualdade e a vida. Era pelo direito à vida. Dez anos depois, as ações da polícia e dos grupos de extermínio atingem o povo negro ainda com mais contundência. São jovens, sem antecedentes criminais em sua esmagadora maioria, assassinados em Londrina, em Nova Iguaçu e Queimados, em Recife e Salvador, em São Paulo, em toda parte. Situação que perdura há décadas, e se agrava, sem sensibilizar governos, partidos, intelectuais. Quantos morreram? Quantos ainda precisarão morrer para o Movimento Negro se libertar da tutela dos partidos, das igrejas e das organizações e se permitir reapropriar-se de seu papel de sujeito ativo?

A ausência de um Movimento Negro estruturado nacionalmente, com autonomia e vigor militante, que superasse as ações fragmentadas e dispersas e as cumplicidades resignadas, é a maior tragédia da história política do Brasil.

Há sinais de resposta organizada a esse quadro de violência extrema em algumas cidades. Em Salvador (foto), o MNU, o EREgêge e outras organizações lançaram uma campanha para estimular a reação de uma população acuada pelo racismo, pelo desemprego (são 500.000 pessoas desempregadas na Grande Salvador), pela polícia e os grupos de extermínio.Estão dizendo nas ruas, sem rodeios: reaja, ou você morre. Há mais notícias sobre a campanha nesta edição, em que alcançamos a tiragem de oito mil exemplares.

Entidades e militantes do Movimento Negro em todo o país têm sido responsáveis pelo sucesso do Ìrohìn. Agradecemos, em nome da equipe que faz o jornal, as expressões que nos têm chegado de estímulo e reconhecimento ao esforço de tornar mais visível a luta do povo negro contra o racismo e as desigualdades raciais.