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Quinta, 18 Janeiro 2018 17:44

Valdir Cabeleireiro - ação comunitária transformadora Destaque

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Valdir Cabeleireiro - ação comunitária transformadora

Rubens Ferreira é mestrando em Ciências Políticas na Universidade Federal da Bahia (UFBa). Daianne Mangabeira é bacharel em Geofísica, formada pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa-RS). Érica Mendes é historiadora pela UFBa. Tamara Pinheiro está concluindo Engenharia Civil na Universidade Católica do Salvador (UCSal). O que esses jovens têm em comum? Foram preparados para acessar o ensino superior no Grupo de Ação Promocional, Educacional, Científico e Cultural – Gapecc, apoiado por Valdir Macário, o Valdir Cabeleireiro.

Ajudar jovens a acessar a universidade foi uma das muitas iniciativas que Valdir Macário abraçou em vida. Ativista social nato, cedo percebeu que, assim como ele e seus sete irmãos, jovens negros periféricos precisam de oportunidades para dar consequência a seus sonhos e modificar suas realidades. Com o apoio que deu ao Gapecc, ele criou as condições para centenas de estudantes buscarem no ensino superior um vetor de transformação de suas vidas. Destes, cerca de 45 ingressaram em universidades públicas.

“A atitude de Valdir foi fundamental. Se não fosse ele, o curso não ia funcionar naquele ano”, lembra Daianne Mangabeira. Ela conta que em 2010, ano da sua turma no Gapecc, Valdir Macário adotou o projeto, cedendo espaço e a estrutura no prédio do seu salão de beleza. “Além da formação para o vestibular, tivemos uma formação humana, uma formação para a vida, sobre questões raciais e políticas, por exemplo. Eles nos ensinaram que nós, jovens negros, precisávamos romper barreiras para nos inserirmos”, declara Érica Mendes.

O cursinho foi uma iniciativa de jovens como Leonardo Paiva, que é mestrando em Física na UFBa, e seu irmão, Leandro Paiva, que frequentou engenharia química na Universidade de Salamanca, Espanha, e hoje é mestrando na UFBa. A ideia era dar a jovens periféricos o direito de sonhar com um futuro melhor. E conseguiram. Em 2010, o projeto ocupou o terceiro andar do prédio da família de Valdir, adquirido como resultado de muito trabalho no salão instalado no primeiro piso. Assim como todas as outras investidas de Valdir, o Gapecc contou com o suporte da família, que preparava e servia uma refeição diária para diminuir a vulnerabilidade social dos jovens no retorno as suas casas.

O Gapecc deu a meninas e meninos a oportunidade de sonharem e transformarem seus sonhos em realidade, mas também contribuiu para a valorização e afirmação de suas identidades étnicas. “O curso abriu nossas cabeças”, declara Tamara Pinheiro. “Foi o espaço que nos proporcionou as condições para sabermos que podíamos chegar onde estamos hoje”, afirma Rubens Fonseca. Essa era exatamente a meta de Valdir e por isso, talvez, o Gapecc seja a melhor tradução de sua trajetória e legado.

Valdir

 

Mas Valdir Macário nasceu e cresceu no Engenho Velho de Brotas, bairro forjado na força e resistência dos descendentes de escravos explorados no engenho de açúcar que o originou. Ali, sua família aprendeu e aplicou estratégias, desde cedo, para driblar as adversidades e contribuir com a vida social e cultural da comunidade. Referências locais ajudaram a fortalecer suas estratégias de sobrevivência e identificação. A família Bafafé, uma das mais atuantes no bairro, os mestres João e Dedé, que ensinaram capoeira no Garcia, foram algumas delas.

Valdir mobilizou a juventude do Engenho Velho de Brotas em torno de várias intervenções culturais. Foi diretor da quadrilha junina ‘Busca Pé’, uma das maiores de Salvador, campeã em todas as categorias que concorria. “Ele foi diretor também do grupo ‘Samba Fama’, do Gantois, e participou do ‘Puxada Axé’”, lembra Id Macário, irmã mais próxima em idade e em parceria nos empreendimentos junto com Aldísia Macário.

O pertencimento identitário foi fortalecido também nas vivências do Ilê Aiyê. Durante toda a infância e adolescência, Valdir e suas irmãs participaram de atividades promovidas pelo bloco afro da Liberdade, bairro de origem do pai. Seja na Escola Mãe Hilda Jitolu, nos grupos  mirins, no Balé Senegal, na quadra ou nos desfiles, o Ilê impregnou nos Macário a ideia de empoderamento da população negra. “Foi o Ilê que nos disse ‘é possível’”, assegura Id Macário, que participou ativamente do bloco, dos 9 aos 24 anos de idade, e destaca Dete Lima e Arani Santana como mulheres que influenciaram fortemente a sua formação.

Estética negra

O ambiente familiar e o contexto social foram decisivos na escolha de Valdir Macário por cuidar da estética negra. Mas a dedicação que se tornou sua principal atividade, cabeleireiro, começou aos 14 anos, na porta de casa, abrigado por um sombreiro. Os clientes sentavam em um banquinho customizado pela irmã. A procura era intensa nas tardes de sábado e aos domingos, quando não estava pintando carro na Auto Oficina Internacional, no Gantois. Até o dia em que decidiu: “Só vou me dedicar agora, a cuidar de cabelo”.

Escolha acertada, pois foi como cabeleireiro que Valdir alcançou a própria independência e de sua família. Além da dedicação e muito trabalho, levou a termo uma promessa que fez à mãe, dona Alda Macário, de quem herdou a inspiração para desenvolver produtos de tratamento que, em vez de alisar, valorizam a textura natural do cabelo afro. O creme que dona Alda preparava e vendia no bairro para conseguir alguma renda, de tutano bovino com óleos vegetais, foi a base inicial para a linha usada no salão. O produto que melhor sintetiza essa história é hoje o carro-chefe da linha, o finalizador AVC (Alda e Valdir Macário).

Os laços familiares foram fundamentais para o alcance do sucesso e da estabilidade dos empreendimentos. As atividades do salão começaram na frente de casa, com um sombreiro e um tamborete, seguiram num pequeno espaço, alugado e depois adquirido, ainda no Engenho Velho. Após nove anos, eles partem para a Vasco da Gama. Nessa avenida, Valdir e as irmãs (Id, Aldísia, Alda, Neném, Van) alugaram, compraram, construíram, viveram juntos diferentes experiências empreendedoras, até fixarem o salão no prédio onde atuaram por mais de 20 anos.

Valdir era o caçula de dona Alda Macário, 82 anos, reverenciada em cada canto do salão. Uma mulher negra que vê o seu esforço para dar conta sozinha da família, refletido na união e na vitória de seus filhos biológicos e de outros tantos conquistados. Soube ensinar valores éticos e morais que permitiram aos filhos chamarem a própria casa de “muito engraçada”, porque só tinha telhado de um lado, sem perderem a perspectiva de reverter as situações desfavoráveis. Soube também valorizar a identidade cultural negra que permeia a trajetória dos filhos.

Valdir foi assassinado em 12 de novembro de 2016, num dia como muitos outros, no seu salão, na Avenida Vasco da Gama. Aquela era mais uma tarde de trabalho, de cuidados afro-afetivos pela elevação da autoestima de mulheres negras e homens negros. “Ele morreu no auge da vida”, lamenta Id, lembrando que naquele dia, dançando e cantando, no final do expediente, reverenciaram Xangô, orixá que representa o fogo e a justiça.

Em novembro do ano passado, a vereadora Marta Rodrigues (PT) realizou uma Sessão Especial pelos 30 anos do AFRO – Empreendimento Familiar e Afetivo da Família Macário. Familiares, amigos e admiradores de Valdir participaram da atividade no Plenário Cosme de Farias na Câmara de Salvador. O Projeto de Lei Municipal 617/2017, do vereador Odiosvaldo Vigas (PDT), propõe que uma rua de Salvador passe a se chamar Valdir Macário. Ideal que seja no Engenho Velho de Brotas, bairro onde ele nasceu e influenciou centenas de jovens com suas intervenções comunitárias.

A violência urbana de Salvador privou familiares, amigos, clientes e a comunidade do convívio com Valdir Macário, mas felizmente não será capaz de apagar sua história, seu legado e os reflexos de tudo que ele fez. Valdir soube transformar dificuldades em impulso para o seu próprio sucesso e dos que cruzaram o seu caminho. Ele atuava de forma transformadora e envolvente, tocando e engajando as pessoas, ajudando a melhorar vidas, comunidades, bairros e o mundo.

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 Dreads, tranças, black power e saudade

 

 

No sábado, 12 de novembro, a Bahia perdeu um dos maiores incentivadores da estética negra, Valdir Cabelereiro. Este ativista silencioso possuía uma trajetória de vida admirável, pois através da estética pôde proporcionar o empoderamento sócio racial para muitas famílias negras desta cidade, possibilitando que tais famílias utilizassem a estética como ferramenta de trabalho, promovendo a autonomia financeira e fortalecimento da identidade negra. Valdir também criou condições para que a Bahia fosse referência no campo da estética através do seu belíssimo salão de beleza, especializado em cabelos afros, localizado na Avenida Vasco da Gama. Além deste campo, Valdir também foi um promotor de ações para o desenvolvimento de projetos sociais tais como: Capoeira, cursinho pré-vestibular, grupos de samba, entre outros, que visavam a inclusão social. Fiz o cursinho pré vestibular que funcionou sobre o salão de Valdir, o GAPECC - Grupo de Ação para Promoção Educacional Científico-Cultural durante o ano de 2010. Esse intercâmbio entre a estética e o saber formal empoderou os/as jovens participantes do cursinho no que tange a autoestima. Eu fiz parte dessa turma. Fui profundamente sensibilizado com os saberes compartilhados por Valdir e durante a graduação utilizei tais ferramentas como meio de sustentabilidade através da Ayabá Africanidades para me manter no curso de Ciências Sociais. A morte deste ativista foi sentida pela sociedade baiana, repercutindo no conjunto de cabeças órfãs, que não terão mais as suas mãos para enfeitá-las. Entretanto, seu legado e saber serão imortalizados pela família Macário dando continuidade com as atividades do Salão. Valdir não era somente um habilidoso "mãos de tesoura", mas um intelectual dos cabelos. A Bahia negra está de luto. Entretanto, está profundamente agradecida por sua enorme contribuição contra o racismo. Valdir Cabelereiro será lembrado em cada Dreads, tranças e black power desta cidade, pois em cada mulher e homem negro existe um pouco do poder de suas ideias. # Texto de Rubem Fonseca, publicado no Jornal A Tarde de 1° de dezembro de 2016.

Visualizado 1955 vezes Última modificação em Quinta, 25 Janeiro 2018 16:37
Juci Machado

Juci Machado – Jornalista, consultora de Comunicação e estudiosa das relações de gênero, raça e etnia.

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